Quem Escolhe a Escola dos Filhos?

Tania Zagury

A família vive hoje uma crise de identidade. Embora seja bem grande o número de pessoas que criticam os pais (cada vez com mais severidade), como se fossem eles os únicos culpados por quaisquer atos inadequados dos filhos, nunca houve nas gerações anteriores pais tão preocupados com a democratização da relação. A hierarquia rígida que existia na família foi sendo gradualmente substituída pelo diálogo, pelo respeito à individualidade e às características pessoais de cada um dos filhos, pelo direito à privacidade, pelo desejo de alcançar uma relação baseada no respeito mútuo e não no medo. Enfim, de uma maneira geral, vimos assistindo, ano após ano, a luta dos pais para não repetirem o modelo inflexível que vigorou até a década de 60. Até então prevaleciam duas concepções: ou a criança era vista como um adulto em miniatura (o que gerava expectativas irreais sobre suas possibilidades: não se sujar, sentar direitinho, não deixar cair nada das mãos etc.) ou, ao contrário, como um ser incapaz de participar de quaisquer decisões sobre a sua vida (era comum ouvir-se: criança não tem querer!). Qualquer que fosse a maneira de encarar a criança, seu caminho era apenas um: obedecer sem contestar. Depois de uma verdadeira "revolução", chegou-se ao oposto: tem criança decidindo até o modelo de carro que o papai vai comprar ou se a família vai encomendar um irmãozinho a mais! Não é força de expressão. É fato. Devido a tantas mudanças, pais e mães, muitas vezes, confundem ou ignoram o seu verdadeiro papel. Em nome da igualdade, tem gente desesperada com a falta de limites dos filhos. A questão que se coloca portanto é: até onde vai o direito de as crianças decidirem sobre a sua própria vida e sobre a vida da família?

Ouvir e atender às necessidades dos filhos é fundamental, é, aliás, uma obrigação dos pais esclarecidos. Saber quais são seus desejos, preferências, pensamentos, expectativas e necessidades é, sem dúvida, importante. Mas é necessário, em meio a tudo isso, que os pais estejam muito conscientes do papel que lhes cabe e quais são as suas responsabilidades com os filhos. Por exemplo, quem deve decidir que tipo de escola o filho deve freqüentar, qual o modelo de educação a ser seguido, com que idade começar a freqüentar o colégio, se deve ir ou não à escola porque está chovendo muito? Decisões desse teor devem tomar por matriz a análise cuidadosa do estágio de desenvolvimento da criança e não apenas o que ela gostaria de fazer, mas o que é necessário para o seu desenvolvimento harmônico e integral. Enquanto estão nas primeiras séries (Educação Infantil e Ensino Fundamental), sem dúvida, a escolha deve ser feita pelos pais. É evidente que a criança não tem ainda condições - intelectual ou emocional -, nem discernimento para definir qual modelo de escola irá freqüentar - tradicional ou moderna, religiosa ou leiga, voltada predominantemente para o conteúdo ou a formação de habilidades. Compete, portanto, aos pais decidir.

Essa opção deve ser feita com base em vários elementos. O primeiro deles e o mais importante (antes de considerar distância da residência, equipamentos, instalações confortáveis, beleza da construção, limpeza etc.) deve ser a definição do tipo de educação que se deseja dar aos filhos. A escolha deve ser feita, antes de tudo, em conformidade com o trabalho educacional desenvolvido na família. É importante que não haja discrepância entre o que ensinam e o que é trabalhado na escola. Assim, se os pais acreditam que o mais importante é o desenvolvimento do raciocínio e da análise crítica devem buscar uma instituição que priorize a discussão e a formação do pensamento divergente. Se, ao contrário, acham que o respeito à hierarquia e à autoridade e o domínio do conteúdo programático são os aspectos essenciais na educação, devem procurar escolas que tenham perfil mais tradicional do ponto de vista pedagógico. O critério primeiro deve ser o modelo educacional. Já se vê, portanto que a criança, assim como o adolescente também, na maioria dos casos, não está habilitada para essa decisão. Em geral, o que ela priorizaria? A escola onde o amigo preferido estuda, o prédio mais "maneiro", as informações dos colegas sobre as "gatinhas" ou o "monte de rapazes lindos" e outras coisas que nada têm a ver com uma formação de qualidade. Afinal, os objetivos que norteiam os jovens costumam ser bem diversos daqueles que orientam as escolhas adultas.

Crianças e adolescentes buscam, na maior parte dos casos, antes de tudo, o prazer (mais ainda, o prazer imediato), enquanto que pais e professores têm metas educacionais, dirigem seu olhar para mais adiante. Em geral, jovens pensam no presente, no curto prazo; adultos visualizam o futuro, o médio e longo prazos.

O segundo aspecto essencial a ser considerado é a personalidade da criança. Como é o nosso filho ? É voraz e interessado em aprender ou só pensa em jogar futebol e videogame? Tem alta capacidade de concentração ou se distrai com facilidade? É motivado ou é preciso estar sempre criando situações para que se interesse por qualquer coisa? Tem interesses múltiplos? Desiste com facilidade dos projetos em que encontra dificuldade ou é tenaz e obstinado? É tímido e introvertido ou despachado e intrépido? Cada uma dessas perguntas - e muitas outras, evidentemente - devem ser consideradas. Existem crianças que precisam de mais incentivo do que outras, naturalmente motivadas. De acordo com esse conhecimento, os pais poderão estabelecer com mais segurança qual a escola ideal.

A partir de 12 anos mais ou menos, porém, se por alguma razão, precisamos transferir a criança para outro estabelecimento de ensino, ela já terá condições de trocar idéias de forma mais objetiva. Aí sim, será positivo ouvi-la para avaliar o que deseja. Mas é bom lembrar que o imediatismo do adolescente pode conduzi-lo a aspirações nem sempre as mais indicadas quando se trata de estudar. De todo modo, ouvir os filhos, em qualquer idade, é sempre bom e necessário; considerar de fato o que disseram também; a decisão final, no entanto, deve ser dos pais porque, de modo geral, quanto menores, menos condições de analisar adequadamente a questão. Nada, no entanto, que uma conversa bem orientada, com argumentos concretos e muita segurança por parte dos pais, não resolva. A família precisa reassumir sem medo o papel de principal agência educadora das novas gerações. A escolha da escola é uma decisão dos pais, ainda que baseada nos desejos e características dos filhos.

Tania Zagury (Filósofa, Mestre em Educação, Autora de "Educar sem Culpa" e "Limites sem Trauma", entre outros)

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