Colcha de Retalhos

Roberto Bezerra

A família em si poderia ser comparada a uma série de coisas boas que existe na vida, mas vamos compará-la aqui a algo de singular simplicidade. Uma colcha de retalhos. A colcha como sendo uma grande família e os retalhos como sendo os seus membros.

No decorrer da sua criação, a colcha vai gradativamente sendo formada, primeiro vendo os seus retalhos, impotentes, sendo ligados uns aos outros sem nenhum poder de opção, depois os mesmos se apresentando já com as suas cores atiçadas e rebeldes. Em seguida, já com elas ficando mais apuradas e serenas e, finalmente, chegando à fase em que as mesmas vão amadurecendo e começando a ficar desbotadas, mostrando os primeiros sinais de envelhecimento.

Da mesma forma vai acontecendo também com a costura que une esses retalhos. Na medida que ela vai ficando velha, começa a se desprender e, lentamente, vai soltando-os, fazendo com que os mesmos se separem uns dos outros como se tivesse havido algum tipo de desavença entre eles ou então algum tipo de doença os tivesse acometido para que precisassem se afastar da colcha por algum tempo.

Alguns desses retalhos, recuperados por uma nova costura, conseguem até retornar, já outros, por estarem com o tecido um tanto gasto, não têm a mesma sorte e não retornam nunca mais, deixando aquela lacuna para ser preenchida por um novo retalho.

E assim, todos eles, com o tempo, vão se soltando, uns na frente, outros mais atrás. Novos retalhos, cada vez mais, assumem os lugares deixados pelos antigos e, quando menos se espera, toda a colcha tem sido renovada. É claro que, de forma natural, é necessário muito tempo para que toda essa renovação aconteça. Mas vai acontecendo sem que ninguém consiga modificar esse fato. Ao contrário, ninguém sequer se apercebe do que está realmente ocorrendo.

O mesmo vai acontecendo também com a nossa existência. Com as nossas vidas. Nascemos no seio de uma família. Na infância, somos retalhos impotentes, ligados a uma colcha, supostamente desconhecida. Depois, na adolescência, nos tornamos retalhos rebeldes, muitas vezes, até bem irreverentes. Em seguida, na idade adulta, viramos retalhos maduros, com ideais já definidos e finalmente começamos a perder as nossas cores e também a nos desencantar com muitas das ilusões que a vida nos apresentou. É o primeiro sinal que somos um retalho que começou a envelhecer.

Começamos a perceber então que, no decorrer de nossas vidas, a costura que nos ligava à nossa colcha, por muitas vezes, rompeu-se por conta de uma infinidade de repuxos desnecessários que demos nela.

Afinal, somos nós, seres humanos, retalhos frágeis, prolixos e extremamente sensíveis no que tange a essa questão chamada de sentimento. Muitas vezes, a um simples puxão da costura, até procuramos dar uma mãozinha para ajudar a nos desprender mais facilmente e quando, finalmente, acordamos e nos damos conta da nossa atitude, já é muito tarde e não dá mais tempo de retornar à nossa formação na colcha de retalhos.

E mesmo, quando conseguimos retornar, quanto tempo de convivência se perdeu então com os retalhos que foram costurados a nós pelo milagre da vida. E apenas por conta de uma aresta, muitas vezes sem fundamento, de uma soberba infantil ou até da infeliz ignorância que resolvemos alimentar no decorrer dessa nossa, tão curta, passagem pela vida.

Enfim, é lamentável quando qualquer retalho se solta e não consegue mais retornar. Pois, muito provavelmente, com o passar do tempo, ele até deixará de ser um nobre retalho e se transformará apenas em um mero pedaço de pano esquecido pela costura, pela colcha e até pela vida.

Já os retalhos sobreviventes, inclusive os que, mesmo se soltando, conseguiram exercer o seu direito de retornar, esses sim transpuseram, num majestoso salto olímpico, as adversidades que lhe foram, sabiamente, impostas pela vida e, com certeza, irão se manter, daí pra frente, unidos à sua colcha de retalhos, mostrando assim uma lição, não de sabedoria, mas sim, de grande aprendizado.

Cecílio Elias Netto é escritor e jornalista.

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